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Biobibliografia do Padre Ruela Pombo

Padre Ruela Pombo

MANUEL RUELA POMBO
1888-1960


José de Paiva
Câmara Municipal de Lisboa

BIOGRAFIA

Manuel Ruela Pombo nasceu em 30 de Julho de 1888, na freguesia do Bunheiro, concelho da Murtosa, distrito de Aveiro, oriundo de uma família de lavradores, tendo sido o primeiro de sete irmãos.

Fez os estudos preparatórios para o curso de Teologia no Colégio-Internato de Santo António e depois no Seminário Menor de Nossa Senhora do Rosário, nos Carvalhos.

Em 1911, quando já frequentava o Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição, no Porto, envolveu-se, de maneira ainda hoje pouco clara, nas convulsões do chamado «Golpe Militar do Palácio de Cristal», de origem monárquica, acabando por ser preso. Encarcerado no Aljube, foi transferido para Lisboa no navio «Adamastor», dando entrada no Forte de São Julião da Barra, onde ficou incomunicável, até que o levaram nova-mente para o Porto a fim de ser julgado. Foi depois conduzido para o Limoeiro e daqui transitou para o Forte do Alto do Duque, donde se evadiu, na noite de Carnaval de 20 para 21 de Fevereiro de 1912, chefiando um grupo de onze companheiros.

Exilou-se na Galiza, junto das hostes de Paiva Couceiro, vindo a tomar parte na II Incursão Monárquica, na marcha sobre Chaves e no assalto à Praça Forte.

Derrotados os monárquicos, retiram-se novamente para a Galiza, e Ruela Pombo integra este grupo. Entretanto, o Governo Espanhol, por pressão de Portugal, ameaça desencadear prisões entre os revoltosos. Perante os acontecimentos, decide então embarcar para o Brasil, com o intuito de terminar os estudos e ser ordenado sacerdote.

Desembarcado em Santos, não pôde ficar nesta diocese, dada a grande afluência de clérigos portugueses, motivada pela perseguição republicana. Seria na Diocese de Pouso Alegre, Estado de Minas Gerais, que viria a encontrar colocação como porteiro do Seminário-Paço Diocesano e, depois, como professor e prefeito no Ginásio Diocesano, tendo completado as cadeiras que lhe faltavam dos estudos iniciados no Porto.

Sentindo-se explorado (como retribuição recebia apenas alojamento e alimentação) e não vendo a hora de ser ordenado sacerdote, pois o bispo entendia que primeiro devia familiarizar-se com os costumes locais, logrou a transferência para a Diocese de Campanha do Rio Verde, no mesmo Estado, em Março de 1914.

Aqui, apesar de contrariedades de vária índole, foi ordenado sacerdote, em Julho de 1916.

Entretanto, em 1914, o Governo da República tinha concedido a amnistia aos exilados, mas, contrariando o desejo da família, decide permanecer no Brasil.

Em Janeiro de 1917, tomou posse como vigário da paróquia do Senhor Bom Jesus de Matosinhos do Lambari, actual Jesuânia, onde permaneceu até Setembro de 1919, altura em que assume o cargo de pároco de São Gonçalo de Sapucaí, onde irá permanecer até Março de 1922, data em que parte para Angola como missionário.

Três ordens de factores fundamentaram esta decisão: por um lado, o Governo Português reconhecia o papel civilizacional desenvolvido pelas Missões Católicas no Ultramar, concedendo aos missionários um estatuto em tudo semelhante ao dos funcionários públicos, incluindo a reforma; por outro, sendo o Padre Ruela Pombo um homem corajoso e emotivo, amante da Justiça, naturalmente que, no desempenho do seu cargo, pôde constatar questões de injustiça social o que o levou a envolver-se na política local, dominada pelos «coronéis», gerando-se um clima de animosidade próxima do conflito; por último, pesou nesta ordens de factores a sua situação económica, cuja debilidade era no mínimo embaraçosa.

Uma vez em Luanda, começou por exercer o magistério primário, até que, em Dezembro de 1923, tomou posse como pároco-missionário da igreja de Nossa Senhora do Cabo da Ilha de Luanda.

No início de 1928, vem de férias graciosas a Portugal e, no regresso, já em 1929, é colocado na igreja de Nossa Senhora da Conceição da Muxima. Aparentemente esta transferência seria motivada pelas movimentações de alguns «caciques», descontentes com as palavras destemidas que o Padre Ruela Pombo desferia do seu púlpito e receosos, sobretudo, da sua acuti-lante escrita.

Desterrado durante 4 anos nesta vila, cujo clima lhe viria a arruinar a saúde, será Angola que ganhará, pois, como pueril vingança, entrega-se ao estudo da história ultramarina, dedicando duas horas diárias exclusivamente à história de Angola.

Reforma-se em 1933, regressando a Portugal e fixando residência em Lisboa. Pôde então entregar-se completamente à sua paixão – a investigação histórica – para o que começa por se habilitar com o Curso Superior de Bibliotecário Arquivista. Nos vinte e sete anos que se vão seguir, até à sua morte, em 2 de Novembro de 1960, decorre o período mais fecundo da sua vida intelectual.

INVESTIGAÇÃO, DIVULGAÇÃO, LIVRARIA

O interesse pela História despertou muito cedo no Padre Pombo, mais precisamente quando frequentava o Seminário Menor dos Carvalhos, e tornar-se-ia uma constante ao longo da sua vida.

Nesses primeiros anos, é provável que se tenha debruçado sobre o Liberalismo, pois sabemos que era simpatizante do ideal democrático apregoado pelos republicanos. Mais tarde, devido à atitude anticlerical da Repúbli-ca, viria a modificar a sua opinião e, até ao fim da vida, declarar-se-ia como «monárquico e miguelista inofensivo».

No Brasil, quando foi pároco na cidade de São Gonçalo de Sapucaí, terra onde viveu Barbara Heliodora, mulher de Alvarenga Peixoto, um dos Inconfidentes, encontra preciosos elementos sobre a Inconfidência Mineira, nos livros do arquivo religioso. Começa então a investigar este tema e divulga o resultado das suas pesquisas no jornal «O Estado de Minas». É assim que, começando por adquirir livros para aprofundar este assunto, não mais parará. O interesse pela Inconfidência alastrará, em pouco tem-po, a toda a história do Brasil colonial: o descobrimento e exploração dos primeiros séculos, a França Antárctica, o domínio holandês, o tempo dos Filipes – por arrasto, a expansão espanhola na América –, as ideias liberais e a declaração da Independência. Logo, não é só o Brasil colonial, mas toda a história brasileira: o Império e os conflitos internacionais em que o Brasil participou no século XIX, a proclamação da República e as subsequen-tes revoluções, o Estado Novo.

Em Angola, foi dos primeiros investigadores a pesquisar os arquivos do Governo Geral, da Câmara Municipal de Luanda e da Cúria Diocesana. É assim que desvenda a sorte dos Inconfidentes que foram deportados para esta colónia.

Em 1931, inicia a publicação de uma revista, «Diogo Cão», onde divulga os resultados dessas pesquisas, pondo à disposição dos investigadores documentos inéditos e importantíssimos sobre a história desta colónia. Antes disso, já tinha dado à estampa «Paulo Dias de Novais e a fundação de Luanda» (1926). Obra prematura, por falta de fontes históricas que não existiam em Angola, como reconhece, mas que promete consultar quando vier a Portugal. Consultas que efectua quando vem de «graciosa», se bem que as suas peregrinações pelos arquivos o tenham levado a editar uma outra obra, publicada em fascículos, onde dá conhecimento das investigações que efectuou em Luanda e Lisboa sobre os Inconfidentes: «Inconfidência Mineira: 1789: os conspiradores que vieram deportados para os presídios de Angola, em 1792» (1932-1933). Tanto a revista Diogo Cão como esta última obra tiveram grande impacto no historiografia brasileira, como atestam as numerosas citações em obras de autores brasileiros.

Quando retorna a Portugal, já a sua livraria era imensa, pois encheu 19 caixotes e 4 cestos grandes, tendo pago pelo frete – em 1933 – 530$00! Para além da história de Angola, é toda a história da costa africana (o descobrimento e a colonização), as viagens de exploração ao interior do continente, as rivalidades luso-britânicas e as consequências nefastas para Portugal da Conferência de Berlim. Já aqui se começa a desenhar um dos pontos fortes da sua biblioteca – a história da expansão portuguesa.

Uma vez em Lisboa, o Padre Ruela Pombo poderá dar vazão ao seu incansável desejo de conhecer. É todo um universo por desvendar, são os arquivos da Torre do Tombo, da Câmara Municipal, da Academia das Ciências, da Sociedade de Geografia, de várias sacristias e o Arquivo Histórico e Ultramarino; as bibliotecas de Lisboa, a Nacional e a Municipal Central, para só citar duas.

Em consequência deste labor extraordinário, a sua produção literária conhece o seu período áureo. Continuou a publicar a revista «Diogo Cão», até 1938, quando teve de a suspender por motivos económicos. Devemos salientar que tudo o que editou foi custeado exclusivamente por si.

Intensifica-se a sua colaboração em numerosos jornais, prática que tinha iniciado ainda em Portugal e que não abandonou nem no Brasil nem em Angola, e assiste-se a uma explosão de opúsculos, revistas e monografias, onde dá conta dos resultados das suas pesquisas, divulgando incontáveis documentos inéditos e vulgarizando obras há muito editadas, mas esgotadas e caídas no esquecimento. Apesar de um conhecimento e curiosidade universais, as suas publicações reflectiam os seus interesses de momento, definindo simultaneamente as orientações de crescimento da sua livraria.

Livraria que se avoluma, reflectindo a imensa apetência de saber do seu proprietário. Se à Dinastia de Borgonha não concede grande atenção, já a Crise de 1383-1385 e toda a Dinastia de Avis são dignas de aquisições maciças. Prior do Crato é uma figura que o toca profundamente, aliás muito escreverá sobre ele. Do domínio filipino é Filipe II o privilegiado. Como não abundam obras sobre este rei na historiografia portuguesa, encomenda-as em Espanha, como também encomendará as que tratam dos descobrimentos espanhóis, da conquista espanhola da América e das rivalidades luso-castelhanas na América do Sul, sobretudo na região do Prata. Os outros Filipes só o interessam colateralmente e apenas no que diz respeito ao Império Português na região do Índico, que vai registar páginas herói-cas, e que o Padre Ruela Pombo considerava pouco valorizadas pelos portugueses.

Restauração de 1640, assunto que o apaixona, sobre o qual escreverá imenso, tendo publicado algumas páginas inéditas sobre a aclamação de D. João IV, e que constitui outro dos pontos altos da livraria.

Do tempo de D. João V o foco é naturalmente o Brasil, fora isso nem daríamos conta deste rei na colecção, não fossem as numerosas orações fúnebres em sua memória. Aliás, as peças de oratória mereciam-lhe grande atenção: são panegíricos, orações fúnebres, sermões, discursos parlamentares e políticos, etc.

O Marquês de Pombal, o Liberalismo, o Iberismo, o reinado de D. Carlos, a Implantação da República, o desenvolvimento das colónias com o Estado Novo, Lisboa... É um nunca mais acabar de abundante bibliografia, nalguns casos e para a época, completamente exaustiva.
Muitos assuntos vieram por acréscimo, como é o caso do Direito Internacional Público, sobretudo o Direito do Mar e o Direito da Guerra; outros por gosto e prazer, como, por exemplo, a literatura de viagens de que foi um leitor ávido.

Quando morreu, encontrava-se no prelo o volume «Portugal Constitucional», primeiro dum projecto mais vasto sobre a implantação do Liberalismo em Portugal. Esta obra de divulgação, que teve como fonte de informação privilegiada a sua livraria, ocupa-se dos factos ocorridos em Portugal e no Brasil, entre 1819 e 1828, das personalidades que os protagonizaram e da repercussão dos mesmos no panorama político europeu. O livro viria a ser publicado, postumamente, em 1990, pelo Padre Manuel Cirne, biógrafo do Padre Ruela Pombo, que respeitou o estilo peculiar e um tudo nada caótico do seu autor.

DOAÇÃO

O destino desta imensa biblioteca começou a preocupar o Padre Ruela Pombo que, como bibliófilo que era, pôde constatar, ao longo da vida, o destino que tiveram valiosas bibliotecas após a morte dos seus proprietários. A disseminação de fundos, que valiam pelo seu conjunto e não exclusivamente pelo valor intrínseco dos volumes de per si, levou-o a tomar a decisão de os doar a uma instituição, impondo como condição o ficarem juntos e terem a denominação «Doação Padre Ruela Pombo».

A escolha da Biblioteca Municipal Central de Lisboa não é surpreendente, pois esta cidade foi uma das suas paixões. Tanto assim é que foi objecto de uma das suas mais importantes publicações, «Cinzas de Lisboa», editada em seis volumes, de 1950 a 1955, se bem que o seu conteúdo extravase em muito a olisipografia, pois, como explica no primeiro volume, vai divulgar documentos que encontrou nos arquivos e bibliotecas desta cidade, tomando-a como capital da Nação e do Império, pelo que é toda a expansão ultramarina que perpassa nas suas mais de 1500 páginas.

Nunca é demais realçar o gesto magnânimo do Padre Manuel Ruela Pombo. Não por ter feito a doação, mas por a ter instalado de imediato na Biblioteca Municipal Central, procedido à catalogação dos livros e publicado sete catálogos do inventário topográfico (1958-1960), trabalho que só não concluiu por a morte o ter levado.

É que esta é uma livraria muito especial, ela é uma memória do seu proprietário! São as anotações, muitas vezes de carácter pessoal, os comentários e correcções, os sublinhados, sempre muito exuberantes, as marcas de posse (usou várias), o preço das obras, o dia da compra e, algumas vezes, o local da aquisição (livraria, leilão ou feira-do-livro), as dedicatórias dos autores, cartas e cartões de visita dos mesmos que colava nas obras, como também colava recortes de imprensa, convites para conferências, a correspondência com livreiros estrangeiros acerca de uma qualquer encomenda, recibos do pagamento das quotas das sociedades de que era membro: Sociedade de Geografia de Lisboa, Sociedade Histórica da Independência de Portugal e Grupo Amigos de Lisboa – enfim, o registo quase diário de uma vida.

Pensar que este Homem, que amou os seus livros, conviveu quotidianamente com eles, os leu de fio a pavio, escreveu sobre eles, quando os queria rever se tinha de deslocar à Biblioteca Municipal Central, é dor que se pressente imensa, só compreensível se se tiver presente que tinha a convicção de os ter livrado de um destino inglório.

Hoje, os seus livros, «leais e defensores companheiros», estão à disposição de quem os quiser consultar, na Biblioteca Municipal de São Lázaro, primeira das muitas que se lhe seguiriam nesta cidade, cuja história tanto investigou – e que assim se cumpra, finalmente, a vontade do Padre Manuel Ruela Pombo!

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